Assunto central para entender a origem, o conceito e a importância da associação livre na psicanalise.

Associação Livre como Método: origem, conceito e importância

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Vamos falar sobre a associação livre como método psicanalítico (aplicável também em psicologia). Qual a origem, o conceito e a importância da associação livre como método psicanalítico?

Criada por Freud, a associação livre se tornou uma das bases da psicanálise e segue sendo um dos pilares fundamentais da clínica.

A ideia central é simples: o paciente deve falar livremente, sem censura ou filtro, dizendo tudo o que lhe vem à mente.

A origem da associação livre como método

Esse método não surgiu do nada, mas foi sendo lapidado ao longo dos atendimentos clínicos de Freud.

  • Em Estudos sobre a Histeria (1895), vemos sua técnica evoluir do uso da hipnose para a valorização da fala espontânea do paciente.
  • Já em A Interpretação dos Sonhos (1900), a associação livre aparece como regra fundamental da psicanálise.

Além de resgatar essa trajetória, esse trabalho também traz uma reflexão contemporânea sobre o tema, com base no pensamento de Gilson Iannini no seu livro “Freud no século XXI”.

Isso nos permite entender não apenas como a associação livre surgiu, mas por que ela continua sendo indispensável para a psicanálise até os dias de hoje.

Uma síntese sobre a associação livre

A associação livre como método é o principal pilar da psicanálise freudiana no tratamento psicanalítico. Para Freud, essa técnica favorece o acesso ao inconsciente. Consiste em deixar o paciente falar sem censura, expressando pensamentos espontâneos.

Assim, podemos diferenciar:

  • Se o discurso é “medido” e regrado, o paciente só abordará aspectos óbvios do seu consciente.
  • Mas, na associação livre como método, o paciente pode falar livremente, o que favorece que conteúdos reprimidos venham à tona e sejam interpretados pelo analista.

Ao evitar interrupções ou julgamentos, o analista ajuda o paciente a estabelecer conexões inesperadas.

Freud percebeu que lapsos de memória, esquecimentos e sonhos trazem sinais do inconsciente, revelando medos, desejos e situações formadoras da personalidade. Isso tudo pode ser expresso indiretamente pelo paciente, que fala livremente no setting terapêutico.

A técnica substituiu a hipnose, tornando-se um método fundamental da clínica psicanalítica.

A associação livre como método continua sendo essencial na psicanálise contemporânea, revelando a profundidade do psiquismo humano. Isso porque o inconsciente fala, e cabe à análise escutá-lo.

Vamos aprofundar a definição e trazer alguns exemplos de pacientes que ajudaram a formar a origem da psicanálise.

Desenvolvendo o Conceito de Associação Livre

A associação livre foi descrita por Freud pela primeira vez em A Interpretação dos Sonhos (1900), no seguinte trecho:

“Então lhe dizemos que o êxito da psicanálise depende de ele observar e comunicar tudo o que lhe passa pela mente e não ceder à tentação de suprimir um pensamento porque lhe parece irrelevante ou não pertence ao tema, ou despropositado. Tem que adotar uma postura completamente imparcial em relação aos seus pensamentos; pois é justamente devido à crítica que ele normalmente não encontra a resolução que se busca do sonho, da ideia obsessiva etc.” (Freud, 1900, p. 143).

Essa definição segue sendo válida até hoje, como podemos ver no Vocabulário da Psicanálise de Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis:

“Método que consiste em exprimir indiscriminadamente todos os pensamentos que ocorrem ao espírito, quer a partir de um elemento dado (palavra, número, imagem de um sonho, qualquer representação), quer de forma espontânea.” (Laplanche & Pontalis, 2022, p. 38).

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    O mais interessante é que, ao ler Estudos sobre a Histeria (1895), podemos perceber que esse método foi sendo desenvolvido aos poucos, caso a caso, até Freud chegar à formulação da associação livre como conhecemos hoje.

    A Evolução da Associação Livre como Método de Freud em Estudos sobre a Histeria

    Vamos acompanhar em ordem cronológica apresentada no livro e ver como o método foi se afunilando para como o conhecemos hoje.

    Não vamos nos ater às especificidades de cada caso, mas voltar o olhar para como Freud empregou seu método em cada um.

    Senhora Emmy Von N.: o início da associação livre como método

    A Senhora Emmy Von N. é conhecida por pedir que Freud não a interrompesse, dizendo: “De onde vem isto ou aquilo?”, mas que apenas a deixasse falar. Apesar disso, Freud utilizou a hipnose e sugestões diretas para tentar fazê-la abandonar seus sintomas.

    Emmy demonstrava boa vontade, mas Freud percebeu que, mesmo sob hipnose, ela resistia inconscientemente a abandonar seus sintomas. Isso o fez perceber que apenas sugestões diretas não eram suficientes para mudar o quadro do paciente.

    Apesar de algum sucesso inicial, o tratamento não teve efeitos duradouros.

    Miss Lucy R.: associação livre como método que superou a hipnose

    Diferente de Emmy, Miss Lucy R. não se deixava hipnotizar, o que levou Freud a buscar uma nova abordagem. Ele passou a pedir que a paciente fechasse os olhos, se concentrasse e respondesse suas perguntas enquanto pressionava sua testa.

    Essa técnica vinha das ideias de Bernheim, que acreditava que o paciente já sabia a origem de seus sintomas, apenas não conseguia se lembrar conscientemente.

    No fim do caso, Freud concluiu que todo acontecimento importante na origem do sintoma está conservado na memória e que, às vezes, falta ao paciente apenas a capacidade de acessá-lo.

    A técnica da pressão (pressionar a testa) não faz parte da associação livre, mas fez parte do método catártico, uma fase freudiana intermediária entre a hipnose e a associação livre.

    Katharina: uma foma atípica de tratamento para Freud

    Katharina foi um caso atípico, pois não ocorreu no consultório. Freud a conheceu durante suas férias, quando a jovem o abordou em busca de ajuda para seus sintomas histéricos.

    Como não havia possibilidade de tratamento formal, Freud apenas a escutou e analisou sua história brevemente.

    Ele supôs que, mesmo sem um acompanhamento clínico, o simples fato de falar sobre seu sofrimento poderia ter sido benéfico para ela.

    Elisabeth Von R.: a compreensão da paciente sobre sua condição

    No caso de Elisabeth Von R., Freud percebeu que a paciente já tinha uma boa compreensão sobre seu sofrimento. Por isso, tentou abrir mão da hipnose, mas, ao tentar aplicá-la, percebeu que a técnica não funcionava.

    Ele voltou a usar a mesma estratégia de Miss Lucy, mas percebeu algo novo: várias vezes, Elisabeth não dizia o que lhe vinha à mente porque achava o conteúdo desagradável.

    Nesse momento, Freud se aproximou muito da associação livre, pois insistiu para que ela dissesse tudo, sem censura. Isso mostrou que não era mais a hipnose que importava, mas sim o fluxo espontâneo de pensamentos do paciente.

    Associação Livre como método no Século XXI

    Para trazer essa discussão para os dias atuais, vale citar o pensamento de Gilson Iannini em Freud no século XXI. Iannini propõe um novo retorno a Freud e argumenta que a questão não é saber se Freud sobreviverá ao século XXI, mas se o século XXI sobreviverá a Freud.

    No Capítulo 6 – O que é psicanálise, ele aborda a associação livre e a atenção equiflutuante. Iannini afirma que a associação livre não é apenas uma condição do tratamento, mas o próprio tratamento em si.

    Iannini destaca que, fora essa única regra inegociável, tudo o mais na psicanálise tem um estatuto mais flexível. Isso significa que a psicanálise não se baseia em protocolos rígidos, mas sim em fundamentos e recomendações que orientam a prática clínica.

    Mesmo diante das mudanças culturais, a associação livre continua sendo o princípio fundamental da psicanálise. Sem ela, não há análise possível, pois é justamente essa abertura irrestrita ao discurso do sujeito que define a experiência psicanalítica.

    Conclusão: a associação livre como método

    A associação livre, mais do que uma técnica, é a essência da psicanálise. Freud a desenvolveu a partir da observação clínica, percebendo que era a palavra livre do paciente, e não a hipnose, que permitia o acesso ao inconsciente.

    A associação livre como método permitiu o fluxo de pensamento e exposição verbal do paciente em clínica e superou a técnica da hipnose.

    O método passou por uma evolução, sendo testado e refinado caso a caso, até se tornar o eixo central do tratamento psicanalítico.

    Mesmo após mais de um século, a associação livre continua sendo indispensável para a psicanálise. Ela não é apenas uma ferramenta técnica, mas a própria expressão da ética psicanalítica: a aposta na palavra singular do sujeito e na sua capacidade de construir sentido a partir do próprio discurso.

    Referências bibliográficas:

    • FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria.
    • FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos.
    • FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.
    • IANNINI, Gilson. Freud no século XXI. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
    • LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
    • GAY, Peter. Freud: Uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

    Este artigo sobre a associação livre como método foi escrito por Rafael Meneghetti Dias, formando em Psicanálise Clínica.

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