Livro Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente

A Obra Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente foi publicada por Freud em 1905, quatro anos depois da Psicopatologia da Vida Cotidiana. O livro, no entanto, não obteve tanto sucesso quanto o anterior. Apenas alguns anos mais tarde é que encontrou um lugar confortável enquanto publicação.

Como já diz o título, o livro trata da análise psicanalítica do humor. Utilizando o espírito metódico característico, Freud analisa a técnica por trás das piadas. A partir dessa análise ele conclui que elas têm a mesma função e origem que os sintomas neuróticos, os sonhos e os atos falhos. Ou seja, o chiste é também uma forma de expressão do inconsciente. As piadas, principalmente as tendenciosas, serviriam como uma forma de liberar determinados pensamentos inibidos.

Em seu livro, Freud chamou a atenção para o fato de que o cômico não foi objeto de muitos estudos até então. Nem na psicologia, nem na filosofia. Ainda hoje, mais de um século depois, o tema continua menos explorado do que poderia. Um dos aspectos que explicaria essa alta de interesse científico seria que grande parte do prazer envolvido na piada é inconsciente. Tanto para quem pratica quando para o receptor.

O HUMOR COMO PORTA PARA O INCONSCIENTE

Entender esse processo inconsciente que constitui o chiste é completamente dispensável para se entender o chiste em sim. Isso quer dizer que você não precisa compreender a motivação inconsciente de uma piada para achar graça dela. Dessa forma, as explicações quando ao mecanismo da comicidade não despertam grande interesse historicamente.

Em um primeiro momento vemos o autor analisando alguns conceitos críticos para compreender porque a piada é engraçada para nós. O que nos faz achar graça. Analisa estilos de estrutura dos chistes, como aqueles baseados na fusão ou na modificação de palavras. Ele compreendeu que as intenções de cada um são elementos importantes para determinar qual estilo ou forma de chistes essa pessoa utilizará.

O autor se preocupa ainda em tratar das piadas tendenciosas e das inocentes. Freud ressalta, no livro já mencionado, que o chiste inocente é quase sempre responsável apenas pelo riso moderado, ocasionado principalmente pelo seu conteúdo intelectual. Enquanto o chiste tendencioso é aquele capaz de provocas uma explosão de riso. Esse fato, observável empiricamente, teria sido o que demonstrou ao autor a impossibilidade de deixar de lado em sua pesquisa o chiste tendencioso.

O autor coloca ainda que como os dois tipos de piadas possuem a mesma técnica, o que tornaria o chiste tendencioso irresistível seria que, por conta de seu objetivo, ele poderia possuir fontes de prazer das quais as piadas inocentes não poderiam acessar.

Quando se refere às piadas tendenciosas, quer dizer apenas que ela possuem uma tendência ou um objetivo específico. Enquanto a graça das piadas inócuas ou inocentes se encontra em sua técnica, a das tendenciosas deriva tanto da técnica quando do conteúdo expresso por ela. Seu objetivo último é o de satisfação de desejos inconsciente.

Para Freud, as piadas tendenciosas seriam uma forma de nos esquivarmos de nossas inibições para expressar nossas pulsões ou nossos conteúdos mentais inconscientes. Nesse sentido, elas são utilizadas para que expressemos tudo aquilo que não poderia se tornar consciente por outros meios. É como a função do sonho.

Assuntos de cunho sexual, por exemplo, que não costumam ser tratados abertamente com pessoas pouco próximas, podem ser trazidos a tona por meio dos chistes. Basta perceber como as piadas que utilizam esse tipo de conteúdo provocam riso.

EXEMPLO

Freud dá em seu livro um exemplo muito interessante, que acredito que possa ajudar todo mundo a compreender essa noção. O autor conta a história de um rei que andava pelas ruas de seu domínio. Enquanto caminhava encontrou um aldeão que se parecia muito com ele. Tamanha era a semelhança que o rei parou para conversar com o súdito. O rei então lhe perguntou “a sua mãe já esteve na corte?”, ao que o aldeão respondeu: “não, senhor, mas meu pai sim”.

Nesse caso, temos uma piada cuja fonte de prazer se encontra tanto na técnica quando no conteúdo que ela expressa. Pensemos primeiramente no conteúdo. O rei, ocupante da mais alta posição de poder, zomba de um aldeão através de uma insinuação sexual. O aldeão, que deve servir e respeitar seu rei, não poderia ofender a ele ou à sua mãe diretamente. Por meio de uma piada, no entanto, ele consegue expressar seu desejo de respostas que, de outra forma, seria barrado antes de alcançar seu consciente.

Quanto à técnica, Freud acredita que quanto mais velado estiver o conteúdo da piada, mais bem elaborada ela é. E, portanto, mais cômica. Continuando com nosso exemplo, podemos demonstrar o nível de elaboração desse chiste analisando o pensamento por trás da piada. Se eliminamos a técnica e olhamos só para o conteúdo, a resposta do aldeão seria diferente. Ele diria “não, senhor, o seu pai não fez sexo com a minha mãe, mas o meu pai pode ter feito com a sua”. Além de uma forma de insultar a mãe do rei (de acordo com as normas sexuais vigentes), a frase indica ainda que se algum dos dois é o resultado de uma relação extraconjugal, sendo caracterizado como filho ilegítimo, esse alguém é o rei.

CONCLUSÃO

Podemos perceber, portanto, que a piada é composta pela técnica e pelo conteúdo, e sua graça deriva de ambos. Ainda assim, Freud não conseguiu definir qual a proporção entre a importância desses elementos. Concluímos que os chistes para Freud são uma forma de expressão dos conteúdos inconscientes, assim como os sonhos e os atos falhos.

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