O que é Histeria? Conceitos e Tratamentos

Histeria, do grego hystera, significa “útero“. Discutiremos o que é histeria para a psicanálise, além de outras visões sobre a história da histeria: conceitos, interpretações, tratamentos.

Desde o Egito antigo já se achava que o útero era capaz de afetar o resto do corpo. Os egípcios acreditavam que uma variedade de problemas corporais se dava ao que era chamado de um útero “vagante” ou “animado”.

Essa teoria de um útero animado se desenvolveu mais na Grécia antiga, sendo mencionada várias vezes no tratado Hipocrático “Doenças das mulheres”. Platão considerava o útero um ser separado no interior da mulher, enquanto Areteu o descreveu como um “animal dentro de um animal“, causando sintomas ao “vagar” por dentro do corpo da mulher, criando pressão e stress nos outros órgãos.

Antigas formas de tratamento da Histeria

Nessa época, se tratavam os sintomas de histeria através da aromaterapia. Aromas desagradáveis eram apresentados as narinas da paciente e aromas agradáveis as genitais, com o intuito de “guiar” o útero ao seu local correto.

No segundo século, Galeno de Pérgamo rejeitou a ideia de um útero vagante, mas ainda considerava o útero como a causa principal da histeria. Ele também utilizava aromaterapia, mas também recomendava o coito sexual como modo de tratamento, além da utilização de cremes, que eram aplicados por servas ao exterior da genitália.

Ao contrário dos escritores Hipocráticos, que viam na menstruação a origem dos problemas do útero, Galeno afirmava que eles ocorriam devido a “retenção da semente feminina“.

A Histeria na Idade Média e Moderna

Na época medieval, a ideia do útero vagante e seus tratamentos mais comuns persistiu, inclusive os tratamentos como a aromaterapia e o coito. Nasceu também a ideia de um acúmulo de fluidos no útero que deviam ser removidos para curar a paciente. Devido a visão da masturbação como um tabu, o único tratamento considerado eficiente de longo termo era o casamento.

Eventualmente, a possessão foi adicionada à lista de causas possíveis para a histeria. Sempre que um paciente não podia ser curado, a explicação assumida era que se tratava de uma possessão demoníaca.

Durante os séculos 16 e 17 as visões de histeria se mantiveram as mesmas que no passado. Se acreditava que o sêmen possuía capacidades curativas e o sexo removia o acumulo de fluidos, por tanto, o coito durante o casamento ainda era o tratamento recomendado.

A visão da Contemporânea sobre Histeria

A partir do século 18, na era industrial, histeria começa finalmente a ser vista como um problema mais psicológico e menos biológico, porém, os tratamentos se mantém os mesmos, mudando apenas a explicação: Pierre Roussel e Jean-Jacques Rousseau afirmam que a feminilidade é essencial e natural para as mulheres, e a histeria agora nasce da falha em realizar esse desejo natural.

Com a industrialização houve a mecanização da terapia de massagem, com “manipuladores” portáteis sendo utilizados para induzir um orgasmo nas pacientes, permitindo o tratamento em casa e com o apoio do marido. É interessante apontar que a masturbação através dos vibradores não era considerada um ato sexual, uma vez que o modelo androcêntrico de sexualidade que era utilizado nessa época não reconhecia um ato sexual se nele não existisse penetração e ejaculação.

Freud e seus precursores

Finalmente, no século 19, os estudos sobre histeria de Jean-Martin Charcot levam a uma visão mais científica e analítica da condição, aceitando ela como um distúrbio psicológico e não biológico, e tentando definir a histeria medicamente, com a intenção de remover a crença de uma origem supernatural para a doença.

Freud aprofunda mais essa pesquisa, afirmando que histeria é algo completamente emocional, e pode afetar tanto homens quanto mulheres, sendo um problema causado por traumas que impediam que as vítimas conseguissem sentir prazer sexual de modo convencional.

Isso é o ponto de partida para Freud definir o Complexo de Édipo, descrevendo a feminilidade como uma falha ou ausência de masculinidade. A definição de histeria do século 19, vendo então a histeria como uma busca pelo “falo perdido”, acabou sendo utilizada como modo de descreditar os movimentos feministas do século 19 que buscavam aumentar os direitos das mulheres.

O sentido atual para Histeria

O termo histeria foi reapropriado pelo movimento feminista nos anos 80, que começou a afirmar que histeria era um tipo de rebelião pré-feminista, publicando vários estudos que contradiziam as ideias psicanalíticas, vendo histeria como uma revolta aos construtos sociais impostos sobre as mulheres ao longo da história ao invés de um substrato natural da feminilidade como o apresentado por Freud.

No século 21, geralmente o termo “histeria” já não é mais utilizado como categoria de diagnóstico em favor de categorias mais precisas, como transtornos de somatização, ou neuroses.

Apesar disso, o estudo da histeria e da sua história ao longo da civilização humana é de suma importância para o estudo da psicanálise, por ser uma das peças-chave para o início do pensamento Freudiano e um dos pontos focais para o momento na história humana onde o que hoje são reconhecidas como doenças mentais deixam de ter explicações biológicas ou supernaturais e começam, finalmente, a serem tratadas como síndromes psíquicas.

Autor: Gabriel Stédile Merlin

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