O que é recalque na Psicanálise?

Quando nos referimos à metapsicologia freudiana, o conceito de recalque se destaca como um dos mais importantes. Em sua obra “A História do Movimento Psicanalítico”, Sigmund Freud afirma que “O Recalcamento é o pilar fundamental sobre o qual descansa o edifício da psicanálise”.

O conceito de Recalque

Embora de identificação precisa em alemão, o termo encontra variações terminológicas quando expresso em outros idiomas. Em francês, “refoulement”, em inglês “repression”, em espanhol, “represión” e em português apresenta três traduções, quais sejam “repressão”, “recalque” e “recalcamento”.

Segundo o Vocabulário de Psicanálise, de Jean Laplanche e J-B Pontalis, os autores optam pelos termos “recalque” e “recalcamento”. Se nos referirmos aos termos “repressão” e “recalque”, observaremos que o primeiro faz referência a uma ação exercida sobre alguém, a partir da exterioridade, ao passo em que o segundo refere-se um processo intrínseco ao indivíduo, posto em movimento pelo próprio eu.

Dessa forma, “recalque ou recalcamento” são os termos que mais se aproximam do sentido utilizado por Freud em seu trabalho. Não obstante esta constatação, é necessário ressaltar que o conceito de recalque não prescinde dos acontecimentos externos vivenciados pelo indivíduo. Neste caso, estes aspectos são representados pela censura e a lei.

O conceito de recalque na história do pensamento

Numa perspectiva histórica, Johann Friedrich Herbart foi quem mais se aproximou do termo utilizado por Freud. Partindo de Leibniz, Herbart chega a Freud, passando por Kant. Para Herbart, “a representação, adquirida através dos sentidos, e como sendo o elemento constituinte da vida anímica.

O conflito entre as representações era, para Herbart, o princípio fundamental do dinamismo psíquico”. Para delimitarmos as semelhanças entre este conceito e o termo utilizado por Freud, é preciso destacar o fato de que “as representações tornadas inconscientes pelo efeito do recalcamento, não foram destruídas nem tiveram sua força reduzida, mas sim, enquanto inconscientes, permaneceram batalhando para se tornarem conscientes”.

Ainda sob a perspectiva histórica, em seus importantes escritos, o próprio Freud afirma que a Teoria do recalcamento, por ele promulgada, corresponderia a uma total novidade, pois até então não constava nas teorias sobre a vida anímica.

Recalque na obra freudiana

Embora apresentam pontos de semelhança, é importante destacar que as teorias não podem ser tomadas como unívocas, haja vista que Herbart não fizera, como Freud o fez, o feito de atribuir ao recalcamento a clivagem do psiquismo em duas instâncias diferentes, o Sistema Consciente e Pré-consciente. De igual forma, Herbart também não enunciou uma teoria do Inconsciente, tendo se mantido restrito a uma Psicologia da Consciência.

Embora o termo em alemão “Verdrängung” esteja presente deste os primeiros escritos de Freud, o recalcamento começa a se delinear apenas a partir do momento em que Sigmund Freud se defronta com o fenômeno da resistência.

Como e por que existe o recalque?

Para Freud, a resistência representa um sinal externo de defesa, com o objetivo de manter fora da consciência a ideia ameaçadora.

É preciso destacar que a defesa é exercida pelo Eu sobre uma ou um conjunto de representações que despertariam sentimentos de vergonha e dor. Sabe-se que o termo defesa, originalmente foi utilizado para designar uma proteção contra uma excitação proveniente de uma fonte interna (pulsões).

Em seus escritos de 1915, Freud questiona “Por que uma moção pulsional deveria ser vítima de semelhante destino (recalcamento)?” Isto acontece porque o caminho para a satisfação desta pulsão pode acabar por acabar por produzir mais desprazer do que propriamente prazer. É sempre necessário termos em consideração, no que diz respeito à satisfação de uma pulsão, a “economia” presente no processo.

Uma vez que uma satisfação que proporciona prazer em um aspecto, pode significar em grande desprazer sob outro aspecto, tem-se estabelecida a “condição para o recalque”. Para que este fenômeno psíquico aconteça, é necessário que a potência do desprazer seja maior que a da satisfação.

Por fim, é preciso ter presente que o recalque impede a passagem da imagem à palavra, embora isso não elimine a representação, não destruindo a sua potência significante. Em outros termos, o que o recalque opera não é a eliminação do inconsciente, mas, ao contrário, a sua constituição, e este inconsciente, em parte constituído pelo recalque continua insistindo no sentido de possibilitar uma satisfação da pulsão.

Autor: Dermeval Barbosa de Souza Filho

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