A entrevista psicanalítica

Para o Dicionário da Real Academia, entrevista refere-se a “Vista, concorrência e conferência de duas ou mais pessoas em um lugar determinado, é para tratar ou resolver algum negócio. Feita esta conceituação, surge a pergunta: Qual o objetivo da Entrevista na Psicanálise?

Em Psicanálise, a entrevista tem como objetivo decidir se o indivíduo que procura o analista deve ou não realizar um tratamento psicanalítico. Na entrevista, segundo Bleger, se avalia a psique ou a personalidade do possível paciente. Em psicanálise é recorrente o modelo de pesquisa não-diretiva, sem tópicos elencados a priori. É importante lembrar que, para Freud “nenhum ser humano pode dar uma informação fidedigna a respeito de si próprio”.

Relação observador-participante na entrevista psicanalítica

Outro tema de relevo, faz referência ao campo da entrevista. Tudo o que acontece em uma entrevista está relacionado com a relação que se estabelece entre os participantes. O recomendável é que o analista participe o menos possível, deixando a iniciativa para o entrevistado.

Para Sullivan, pioneiro no estudo da entrevista, a expressão adequada para esta postura é observador-participante. Para o entrevistado, o estímulo é representado pela presença do analista. Nesse contexto, a partir de uma pergunta elaborada pelo analista, o entrevistado pode abordar temas muito abrangentes, no entanto, o principal questionamento é: por que esta pergunta foi necessária?

Angústias e silêncios na entrevista

É comum na entrevista que ocorram processos de angústia de ambos os lados. Neste caso, é indispensável que esta angústia seja modulada. Isso se dá através de um posicionamento compreensivo e continente do entrevistador.

Também é de vital importância que sejam fixadas as variáveis de tempo e lugar, que se traduzem em uma postura de neutralidade do entrevistador, atitude esta que deve permear todo o tratamento, há hipótese em que este venha a acontecer.

Usualmente, como ressalta Fernando Ulhoa, é comum que o analista assuma uma postura “iatrogênica” relativamente aos entrevistados, mostrando-se muito receptivos sorridentes e informais durante a entrevista mas assumindo, entretanto uma postura distante, séria e informal durante o tratamento, configurando o que o autor denomina de “analista-mudo”.

Neste contexto, um analista percebido como mudo pelo paciente também poderá ser visto como surdo. A consequência mais comum a estes casos é o recrudescimento dos sintomas com o objetivo de reaver “aquele analista” da entrevista.

O lugar da interpretação na entrevista

Outro aspecto que releva sobremodo ressaltar refere-se à interpretação na entrevista. Para David Liberman, durante a entrevista, a interpretação deve ser evitada, uma vez que para o analisando poderá ser compreendida como um “juízo de valor” por parte do analista. Por outro lado, para Bleger, existem casos em que a interpretação é necessária, sobretudo quando houver distorção ou interrupção no processo de comunicação.

Etchegoyen entende que a interpretação é necessária nos casos em que indique a possibilidade de remoção de um obstáculo concreto. Neste caso, é de vital importância que se tenha em mente que a finalidade da entrevista é verificar a adequação do tratamento para “esse” sujeito, da concretização ou não de um processo analítico.

Retornando ao pioneiro do estudo desta temática, Sullivan entende que “é necessário confrontar o entrevistado com alguma angústia no momento da entrevista”. De outra forma, caso o processo fosse totalmente cômodo para o entrevistado, o mesmo não teria razão de ser. Durante a entrevista, as formas de angústia podem fornecer ao analista indícios dos aspectos que mais incomodam o entrevistado.

Transferências e contratransferências na entrevista psicanalítica

Durante a entrevista, a ocorrência de angústia também oferece ao analista a possibilidade de observar os processos de transferência e contratransferência. Durante este processo, o entrevistado reproduz na entrevista conflitos e aspectos do seu passado, os quais assumem uma realidade psicológica.

Neste sentido, o analista não responde apenas de forma lógica, mas também no âmbito contratransferencial.

Também é de fundamental importância destacarmos a entrevista de encaminhamento. Após proceder à indicação, é recomendável que o indicado informe posteriormente ao analista sobre o “outro” encontro, além de colocar-se à disposição para a hipótese de qualquer dificuldade.

Estas considerações não têm objetivo de esgotar um assunto tão estudado, mas oferecer diretrizes para um posterior aprofundamento neste tema que é tão importante para a prática da Psicanálise.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

http://www.redepsi.com.br/2009/08/14/a-entrevista-psicanal-tica/

Autor: Dermeval Barbosa de Souza Filho

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